sábado, 15 de fevereiro de 2014

O Vampiro de Carl Theodor Dreyer (vampyr - 1932)



direção: Carl Theodor Dreyer;
roteiro: Sheridan Le Fanu (baseado em seu livro), Christien Jul, Carl Theodor Dreyer;
direção de fotografia: Rudolph Maté;
estrelando: Julian West, Maurice Shutz, Albert Bras.

O cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer ganhou com o passar dos anos o estatuto de cineasta artista. Logo de início, quando seus filmes saíam, a crítica não os recebia muito bem, a exemplo deste O vampiro. Trata-se aqui do primeiro filme falado (porque segundo Murnau o cinema sempre fora sonoro, mas não falado) do diretor, uma produção independente de estúdios para que o seu autor tivesse maior liberdade criativa. Esta procura por independência foi, certamente, um preço muito alto pago por Dreyer para que pudesse colocar sua assinatura em seus filmes. Depois que rompeu com os estúdios dinamarqueses devido a desentendimentos devido à produção do filme que faria logo após o magnífico O martírio de Joana D'Arc, que cancelou o filme que ele faria, os retornos do mítico cineasta para os sets de filmagem foram esporádicos (depois deste O vampiro, por exemplo, ele somente voltaria a filmar novamente em 1942, exatos dez anos).

Para que este filme de 1932 fosse produzido, Dreyer foi até a França (onde já havia filmado O martírio de Joana D'Arc), em um período em que o cinema ganhou um status diferenciado, sendo tão valorizado quanto as demais artes, e por isso recebia o financiamento de membros da alta sociedade francesa para que pudessem ter peças da sétima arte com seu nome impressas. Foi o caso de O cão andaluz de Luiz Buñuel e também de Sangue de um poeta de Jean Cocteau. O nome de Dreyer certamente já chamava atenção nos círculos artísticos europeus, e quando ele surgiu em França buscando financiamento para uma produção independente logo encontrou o apoio de um jovem que impôs uma condição - trabalhar como protagonista do filme. Dreyer não negou ao jovem Julian West a vaga, colocando-o junto a um elenco formado em grande parte por não-atores. 


Para um cineasta como Dreyer as interpretações perfeitas, as frases ditas no roteiro de forma perfeita, não são um problema, a história pode ser contada por meio das imagens. Por isso ele não se furta de apresentar-nos um filme falado em que as falas são reduzidas ao mínimo. Não são necessárias palavras, a nãos ser quando Allan Grey (Julian West) está a ler um livro sobre vampiros e descobrindo (junto com o espectador) que o perigo pode não estar tão longe assim. A trama construída por Dreyer não é fácil. Seus atores sem expressão tem dificuldade de apresentar à trama a mesma dinamicidade que o diretor havia conseguido com seu filme anterior.

Mas todos os problemas do filme desaparecem quando a filha, que está doente, do dono da casa em que Allan Grey está hospedado precisa de um médico e este aparece o filme ganha um poder impressionante. Cada imagem hipnotiza o espectador, que permanece na cadeira com os olhos fixados na tela se perguntando se seria ele (o médico) um vampiro. A menina precisa de sangue para poder sobreviver e Grey se oferece para doá-lo. É o velho servente da casa (Albert Brass, um dos poucos atores experientes do filme) que começa a desconfiar de que poderia o médico não ser um vampiro, mas o responsável de levar alimento para um.


A iluminação começa a transpirar esta atmosfera de perigo constante.Grey está fraco (acabara de retirar uma quantidade de seu sangue para o médico), sentado em uma cadeira, sem forças até mesmo para conseguir manter os olhos abertos. Uma fresta de luz no chão vinda do interior do quarto da menina que está doente chega até próximo da cadeira de Grey, e enquanto isso ouvimos o médico falando com a menina para que ela vá com ele para que ela possa ser transformada em vampiro também. Com o auxílio da montagem, Dreyer nos mostra o velho servente no escritório da casa, lendo um livro sobre vampiros, quando vê que a cidade em que estão também já fora acossado por vampiros. Novo corte. A porta do quarto da menina se abre, se fecha, outra porta se abre e se fecha - não vemos que as abriu, quem por elas passou, a segunda porta nos é mostrada por meio da luz e sombra. Uma trovoada é invocada pelo médico. Durante ela um esqueleto (a morte ou o vampiro necessitando de sangue para retomar sua forma - fiquei em dúvida aqui) surge no quarto da menina e deixa sobre sua cômoda uma garrafa com veneno.

A cena em que o médico foge é impressionante. Não vemos sua fuga, ela nos é posta de maneira implícita pela vela que ele segura. A luz da vela cria sombras nos corrimão das escadas e notamos que ele está a fugir. Quando Grey surge no escritório da casa em que está hospedado, a vela do médico está no lugar em que a outra filha, Gisèle (Rena Mandel), estava a dormir. A influência que o expressionismo exerceu sobre esta obra é inegável, mas ela não pode ser classificada enquanto uma obra expressionista (mesmo mostrando um pesadelo de Grey). É um filme irregular, mas ainda assim uma bela película que merece ser vista.

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