terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Charles Chaplin (sobre as mudanças psicológicas do vagabundo)



"Nos tempos da Keystone, o vagabundo tinha maior liberdade e não estava adstrito ao enredo. Seu cérebro raramente funcionava nesses dias - apenas funcionavam os seus instintos, que se voltavam para as necessidades essenciais: comida, aquecimento, abrigo. À medida que as comédias se sucediam, o vagabundo ia se tornando mais complexo. O sentimento começava a se infiltrar em seu caráter. Isso se tornou um problema, porque limitava seus movimentos e iniciativas no terreno da farsa grossa. Pode essa observação parecer pretensiosa, mas a farsa exige a maior exatidão psicológica. 

A solução veio quando comecei a pensar no vagabundo como uma espécie de Pierrô. Com essa concepção, eu tinha liberdade de expressão e o direito de embelezar as comédias com um toque de sentimento. Mas, logicamente, seria muito difícil fazer uma moça linda interessar-se por um vagabundo. Isso sempre foi um problema nos meus filmes. Em Em busca do ouro, o interesse da moça pelo vagabundo começa quando ela resolve se divertir à custa dele e, depois de iniciado o gracejo, fica arrependida e cheia de piedade por ele, que confunde esse sentimento com amor. A moça de Luzes da cidade é cega. Em suas relações, ele é romântico e maravilhoso, até que a visão dela é recuperada."

(Charles Chaplin em "Minha Vida")

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