domingo, 12 de janeiro de 2014

Les Enfants Terribles (1950)


direção: Jean-Pierre Melville;
roteiro: Jean Cocteau (livro e adaptação);
direção de fotografia: Henri Decae;
estrelando: Nicole Stéphane, Edouard Dermithe, Renée Cosima, Jacques Bernard.

Este é um daqueles filmes que deixa um cinéfilo com a pulga atrás da orelha. Trata-se do segundo longa-metragem de Jean-Pierre Melville, uma direção sob encomenda de Jean Cocteau que já havia dirigido algumas obras cinematográficas de grande sucesso artístico. Cocteau é um poeta que utiliza do cinema como mais um canal para poder transmitir sua poesia para o mundo. Em 1950, ano em que é lançado "Les enfants terribles", o poeta está a lançar também "Orfeu" - uma obra um tanto melhor resolvida consigo mesma (enquanto filme) do que está a que estou a comentar.

Podemos assim, conhecendo o trabalho já feito por Cocteau no cinema, dizer que este é um filme de Jean Cocteau e não de Jean-Pierre Melville. Isto fica nítido em diversas cenas, mas as principal delas talvez seja o momento em que Elisabeth (Nicole Stéphane) está a dormir e sonha com o irmão Paul (Edouard Dermithe) a caminhar pelo salão de sua mansão. Por se tratar de um sonho o tratamento dado à imagem é diferente, e como diria Jean Epstein, o cinema, assim como o sonho, desenvolve um tempo próprio. Este tempo próprio se apresenta por meio da imagem exibida de trás para frente. Vemos uma mesma imagem que já havíamos visto anteriormente (Paul caminhando pelo salão arrastando um cobertor e segurando um travesseiro), mas apresentada ao contrário (Paul caminha para trás, assim como o cobertor arrastado no chão). Este método é chamado pelo poeta francês de "fenixologia", ou seja, por meio dele podemos trazer de volta à vida o que estava morto (um exemplo magnífico é dado pelo poeta no curta-metragem "A vila Santo-Sospir", quando o próprio rasga uma flor e por meio da fenixologia ele a refaz).


Talvez por ser adaptado de uma obra sua, Cocteau tenha preferido não dirigir o filme e deixá-lo à mão de alguém que poderia respeitar a sua visão e fazer deste "um filme de Jean Cocteau", mesmo que o próprio não tenha desempenhado o trabalho. Mas mesmo possuído o nome de Melville nos créditos iniciais, a assinatura do diretor é sufocada dando lugar para a visão do autor da história que coloca todas as características que enriquecem os seus outros filmes nesta obra. O que não a desmerece. Muito pelo contrário! Cocteau é um poeta muito habilidoso e que sabe trabalhar com cinema, e transpor a sua poesia para a tela.

O filme se faz valer da vida de quatro adolescentes, em principal de um casal de irmãos que dominam as cenas. É neste mundo em que uma linha tênue separa a fantasia da realidade, sempre trancados no interior de uma casa (quando saem, ainda são as regras do interior do quarto em que passam a maior parte do tempo que regulam suas ações), em que os encontramos submersos. Aquele ambiente os sufoca, mas eles não sabem viver fora dele. É um mundo diferente daquele que existe do lado de fora. E por estarem acostumados a viver neste mundo próprio, em que tudo parece encenado (como no momento em que, ao olhar pela janela do quarto é visto as cadeiras de um teatro), eles não conseguem se desligar do quarto. Tanto que quando se mudam para a mansão do marido (que logo vem a óbito) de Elisabeth, Paul constrói uma réplica de seu quarto na casa antiga. 

Mais um ponto positivo (e aqui deve ser o dedo de Melville enquanto diretor) da obra se apresenta no trabalho feito com os sons. Em alguns momentos do filme não foram necessários mostrar o personagem em determinada ação, o simples trabalho com o som já se encarregava de fazê-lo (como no momento em que Elisabeth joga uma carta escrita por Paul em uma privada e dá descarga - apenas ouvimos o som da descarga e a personagem sair do banheiro de mãos vazias). É um trabalho muito esquecido no cinema, a conciliação entre o som e a imagem, e o trabalho de Melville enquanto diretor que busca o realismo para sua obra (tal como as filmagens na rua feita por ele em seu filme anterior "le silende de la mer" comprovam). O uso do som enquanto parte da narrativa e que faça parte da narrativa é constantemente esquecido, e quando utilizado enriquece a obra.

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