segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Harry e Sally - Feitos um Para o Outro (when Harry met Sally, 1989)


direção: Rob Reiner;
roteiro: Nora Ephron;
edição: Robert Leighton;
estrelando: Billy Cristal, Meg Ryan, Carrie Fisher.

Filmes que apresentam romances complicados, em que duas pessoas são claramente feitas para estarem uma com a outra (e faz parte da filosofia deste cinema esse determinismo) e que não aceitam esta condição imposta pelo universo logo de cara, é uma especialidade de Hollywood. Desde a sua criação, passando pelos conurbados anos da segunda grande guerra, pelo período de ouro da década de 1950, e pelo cinema desacreditado (que não acreditava em final feliz, feito na década de 1970), estes filmes vem fazendo sua parte para entrarem para a lista de grandes clássicos do cinema (pelo menos o estadunidense). "Harry e Sally - feitos um para o outro" é um desses filmes. Desde seu lançamento em 1989 ele cativou milhares de espectadores ao redor do mundo e entrou para o imaginário de outros tantos - fazendo-se presente também no imaginário dos filmes românticos mais recentes.

Mas apesar de ser uma película muito agradável, este filme sofre um de grande problema que assola o cinema Hollywoodiano desde o surgimento do cinema sonoro. Quando foi dada a possibilidade de colocar atores para falarem nos filmes, os realizadores de cinema estadunidenses simplesmente esqueceram de que um filme se faz por imagens, e passaram a colocar bonecos falantes para contarem uma história - mais ou menos como uma mãe que senta na beirada da cama do filho para contar-lhe uma história para dormir. Como crianças, adoramos que nossa mãe nos conte histórias para que possamos dormir. Mas cinema não é simplesmente contar uma história, é contar uma história por meio de imagens.

(às vezes me pergunto se os críticos estadunidenses da década de 1940, por exemplo, que adoravam estes filmes falantes em detrimento daqueles que possuíam uma narrativa imagética diriam de um filme em que tivesse um ator sentado lendo Shakespeare. O valor de um filme é visto por muitos pelo ponto de vista literário e não cinematográfico. Ao invés de julgar um filme pela história deveriam julgá-lo pela forma como a história é apresentada, afinal de contas estamos falando de cinema não de literatura. Foi por julgamentos literários de obras de cinema que Alfred Hitchcock passou mais de duas décadas sendo odiado pela crítica - suspense é literatura de segunda categoria).


Este filme é simpático, mas se prende à contar histórias simplesmente pela boca dos atores, e não pelo filme em si. O mérito do filme ser interessante talvez seja melhor dado à Nora Ephron, roteirista do filme, do que à Rob Reiner, diretor. Não é fácil contar uma história de romance por meio de imagens, as coisas não surgem tão abertamente quanto num filme de terror ou suspense, quando simplesmente podemos colocar uma arma apontada para o mocinho do filme que criamos uma situação de tensão. Aqui necessitamos da troca de olhares, e de uma boa decupagem. Neste sentido, Woody Allen soube fazer um belo trabalho em "Annie Hall". Utilizando-se de seu conhecimento de como construir uma comédia, Woody Allen constrói um filme de situações, em que cada cena nos apresenta um caso, não necessariamente necessitando contar uma história para o espectador, mas mostrar o que acontece com duas pessoas durante um relacionamento. "Harry e Sally" não se pode dar ao mesmo luxo, uma vez que existe uma história a ser contada.

É um casal que se conhece, que se encontra diversas vezes, se tornam amigos, e por fim ficam juntos. Faltou habilidade para Reiner conseguir adequar esta história de modo mais preciso para que ele se transformasse em uma peça cinematográfica e não no que Hitchcock chamava de "teatro filmado". A esperteza deste filme está na escrita de Nora Ephron. Repito isto porque é verdade. Ephron sabe escrever, criar as situações, e quando parece que Reiner está desenvolvendo um bom trabalho, na verdade é parte do trabalho da roteirista que está interferindo em seu trabalho enquanto diretor. Exemplo disso é a cena em que Harry (Billy Cristal) está jogando beisebol em um clube (batendo bolas atiradas por uma máquina) conversando com um amigo. Ele diz ao amigo que está amadurecendo, interrompe sua conversa para brigar com um garoto ("eu cheguei primeiro!", "não, eu cheguei primeiro", "eu cheguei primeiro") depois retoma sua conversa. Esta ação é apenas uma das ações de Harry que contradizem o que ele havia dito, mas que está presente no roteiro de Ephron e não na direção de Reiner.

Este é um filme de roteirista, uma tradição hollywoodiana, e não espanta muito apresentarem "Casablanca" no filme, um clássico filme de roteirista com um diretor de encomenda.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...