domingo, 24 de novembro de 2013

Manhattan de Woody Allen (1979)


direção: Woody Allen
roteiro: Marshall Brickman
direção de fotografia: Gordon Willis

"Manhattan" é visto por muitos como sendo um dos filmes mais maduros de Woody Allen. Não estão errados. Por certo, a união do cineasta nova iorquino com o fotógrafo Gordon Willis e a sua vontade de, assim como seu ídolo Ingmar Bergman, expressar seus embates subjetivos em suas obras fizeram com que o diretor passasse a ser destaque no cenário do cinema mundial. E afirmar que ele não sabe filmar fica mais do que uma afirmação equivocada por parte de quem profere tal afirmação.

Mas falemos sobre o filme. "Manhattan", filme de 1979 - realizado logo após "Interiores", filme que tem uma influência bergmaniana explícita - tem em seu início as características que irão moldar a obra. Este não é um filme sobre pessoas, sobre personagens construídos (de forma magistral) por Allen para passearem no cenário que dá titulo ao filme; aqui se dá uma inversão. O filme é sobre a cidade e aquilo que acontece nela. Os personagens, embora acompanhemos suas trajetórias, seus dilemas, suas paixões, servem apenas para mostrar a cidade. 


Os planos filmados por Willis podem servir de auxilio para minha tese. Em determinada cena, Yale (Michael Murphy), amigo de Isaac (Allen), liga para Mary (Diane Keaton) de um telefone público (foto acima). A cena não é filmada para mostrar o personagem, mas a cidade. Nós, espectadores, procuramos o personagem e o telefone público porque ouvimos sua voz e sabemos que ele está a falar ao telefone com sua amante, mas aquilo que se apresenta na tela, que ocupa a maior parte do espaço é o real protagonista, aquele que permite que aquelas histórias aconteçam, que permite que aqueles encontros sejam possíveis: a cidade. A cabine telefônica em que Yale se apresenta surge quase imperceptível no canto direito (da perspectiva do espectador) da tela, enquanto uma rua  e o trânsito que nela se apresenta toma todo o resto da cena.


Muitas são as cenas que são filmadas assim. Até mesmo dentro dos apartamentos os personagens são menos enquadrados pela câmera e mais enquadrados pelas paredes, pelo concreto, pela paisagem urbana. Mesmo ao fim do filme, quando Isaac vai ao encontro de Tracy (Mariel Hemingway), a câmera assume a visão subjetiva do personagem que enquadra sua amada com o auxílio de uma porta. É como se viver em Manhattan fosse viver em um filme, estamos sempre dentro de um quadro e enxergando a cidade (e seus moradores) por meio de enquadramentos.

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