quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Hugo Munsterberg

Hugo Munsterberg foi psicólogo alemão e professor da Universidade de Harvard. Foi ele um dos primeiros a teorizar a respeito do cinema, antes mesmo do desenvolvimento da gramática cunhada por D. W. Griffith. Reproduzo abaixo um trecho do capítulo "A Atenção", presente no livro "Photoplay: a psychological study":

"A mera percepção das pessoas e do fundo, da profundidade e do movimento, fornece apenas o material de base. A cena que desperta o interesse certamente transcende a simples impressão de objetos distantes e em movimento. Devemos acompanhar as cenas que vemos com a cabeça cheia de ideias. Elas devem ter significado, receber subsídios da imaginação, despertar vestígios de experiências anteriores, mobilizar sentimentos e emoções, atiçar a sugestionabilidade, gerar ideias e pensamentos, aliar-se mentalmente à continuidade da trama e conduzir permanentemente a atenção para um elemento importante e essencial - a ação.Uma infinidade desses processos interiores deve ir de encontro ao mundo das impressões. A percepção da profundidade e do movimento é apenas o primeiro passo na análise psicológica. Quando ouvimos falar chinês percebemos os sons, mas as palavras não suscitam uma resposta anterior: para nós, elas são desprovidas de significado, mortas, sem interesse. Mas, se esses mesmos pensamentos forem pronunciados na língua materna, o significado e a mensagem brotam de cada sílaba. A primeira tendência é então imaginar o que o acréscimo de significação presente na língua familiar e ausente da estrangeira, nos é transmitido pela percepção, como se o significado também pudesse entrar pelos ouvidos. Psicologicamente, porém, o significado é nosso. Quando aprendemos a língua, aprendemos a anexar aos sons que percebemos nossas próprias associações e reações. O mesmo ocorre com as percepções óticas. O melhor não vem de fora."


(tradução: Teresa Machado, presente em "A Experiência do cinema" org. Ismail Xavier)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Sobre Godard

Recentemente tive o prazer de me deparar com o livro "A Nouvelle Vague e Godard". Na obra, um dos grandes nomes do cenário da teoria de cinema atual, Michel Marie, faz uma análise aprofundada da primeira obra de longa-metragem de Jean-Luc Godard: "Acossado". Mas antes de realizar esta análise, ele faz algumas considerações acerca do indivíduo que viria a realizar as obras que, considero, sejam as mais ousadas da Nouvelle Vague (juntamente com Alain Resnais). Segue abaixo a transcrição de um trecho do livro, sobre o primeiro curta de Godard:

"Em abril de 1954, pouco antes de morrer em um acidente de trânsito, a mãe faz Godard se empregar na grande barragem de Grande-Dixence, a cuja construção o jovem Jean-Luc consagra seu primeiro curta-metragem, Operação Concreto (Operation Béton). Ele tem então 24 anos. Declara mais tarde ter produzido ele mesmo esse curta-metragem industrial, 'financiado com as economias de seu próprio salário' (diz Moullet), de fatura bastante tradicional. De qualquer modo, ele vende o filme à empresa responsável pela barragem: 'e isso me permite ter dinheiro para um ou dois anos, gastando tanto por mês'. Os créditos de Opertation Béton, publicados em L'Avant-Scéne indicam, todavia, que o filme foi produzido pela empresa Actua-Films (Genebra). Godard recebe os créditos pela direção e pelo comentário.
Se o primeiro curta-metragem é bastante impessoal, isso não se dará com os quatro seguintes, realizados antes de Acossado. Godard não cessará de afirmar em artigos e declarações posteriores a continuidade estreita que haveria entre o conhecimento aprofundado da história do cinema, a cinefilia, a crítica, a direção de curtas-metragens e, mais tarde, a direção dos filmes que se seguirão:

Nós nos considerávamos todos, nos Cahiers, futuros cineastas. Frequentar os cineclubes e a cinemateca era já pensar cinema e pensar em cinema. Escrever era já fazer cinema, porque, entre escrever e filmar, há uma diferença quantitativa, não qualitativa (...) Como crítico, eu me considerava já cineasta. (Cahiers du Cinéma, n. 138, dezembro de 1962).

'A crítica era nosso aprendizado sobre a realização'. 'Para nós, fazer nosso primeiro filme era escrever nos Cahiers'. 'Escrever era fazer filmes. Essa originalidade que era nossa jamais foi reencontrada depois'".



(Michel Marie em A Nouvelle Vague e Godard, p. 126 - 127)
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