segunda-feira, 20 de maio de 2013

A estética do filme




Um breve comentário sobre Kill Bill de Quentin Tarantino

Colocar, em um filme, uma cena que fuja ao “realismo fantástico” imposto por Hollywood ao qual já estamos tão acostumados é, por vezes, chocante. Quando, em cena, um ator com o dedo toca o braço de outro ator, e este segundo passa a sangrar em jatos, o espectador se vê em um momento estranho. É um estranhamento estético.

Parece-nos absurdo ver alguém sangrando litros como comportasse dentro de si uma piscina de sangue. Trata-se, no entanto, de um exercício interessante de ser realizado. É como se o autor lembrasse o espectador que nada daquilo é real, de que na verdade ele está a assistir um filme.

Este exercício é praticado, por exemplo, por Quentin Tarantino em Kill Bill. Tarantino é famoso por ser um cineasta de “homenagem”, em que a maioria (se não todos) os planos de seus filmes remetem a outros filmes que figuram na lista dos adorados pelo diretor. No momento em que, no primeiro Kill Bill, a noiva corta o braço da advogada da máfia japonesa, e esta passa a sangrar durante toda a extensão temporal da cena, não é que ele (Tarantino) tivesse em mente, necessariamente, fazer uma gracinha. Neste momento o espectador se pega vendo algo absurdo, comparando com sua vida, com a realidade, tirando como conclusão do absurdo da cena e julgado: “isto é um filme”. Desprendimento necessário para que o espectador mais cinéfilo venha a se desprender da história contada para perceber as referências que o diretor coloca no filme.

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